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Se você passou por aqui nas últimas semanas, sabe que a gente já dissecou A Hipótese do Amor com o rigor científico que um namoro de mentira entre cientistas merece, e ainda comparou o livro com a adaptação. A pergunta natural de quem terminou e ficou órfã é "e agora?". A resposta da própria Ali Hazelwood veio um ano depois, e se chama A Razão do Amor.
Aviso de método antes de começar: não é continuação. Personagens novos, história independente. O que se repete é o universo temático, que é mulher na ciência, academia disfuncional e um homem enorme com dificuldade de verbalizar sentimentos. Se isso é defeito ou é exatamente o que você quer, a gente discute daqui a três parágrafos.
A premissa: o que Marie Curie faria?
Bee Königswasser é neurocientista, tem cabelo colorido, tatuagens, uma gata com nome de cientista e uma carreira em processo acelerado de decomposição. A bússola moral dela é uma pergunta só: o que Marie Curie faria? Quando aparece a chance de liderar um projeto de neuroengenharia da NASA, capacetes para astronautas, nada menos, a resposta é óbvia. Marie Curie aceitaria. Marie Curie aceitou coisas bem piores, inclusive rádio no bolso do avental.
O problema atende pelo nome de Levi Ward, colíder do projeto e, na contabilidade afetiva de Bee, "Levidiota": o engenheiro que no doutorado deixou claro que os dois trabalhariam melhor em galáxias separadas. Só que o Levi do presente apoia as decisões dela, resolve os problemas dela antes que ela peça, e a olha de um jeito que nenhum rival olha. Enquanto isso alguém sabota o projeto, e Bee desabafa tudo com um amigo anônimo da internet que nunca viu na vida.
Quem está lendo decifra o que está acontecendo por volta da página 60. A Bee, que é literalmente especialista em cérebros, leva o livro inteiro. A ciência ainda não explica esse fenômeno. A comédia romântica agradece.
O parecer honesto da casa
Vamos ao ponto que outras resenhas contornam com elegância: é a mesma fórmula do primeiro livro. Protagonista brilhante da área de exatas, interesse amoroso gigante e monossilábico, mal-entendido de proporções geológicas sustentando a trama inteira, e uma discussão pertinente sobre machismo na academia, desta vez com a mão um pouco mais pesada, a ponto de alguns comentários se repetirem.
Agora a segunda parte do parecer: a fórmula é o produto. Ninguém abre um Hazelwood esperando reviravolta de thriller. Abre esperando conforto com jaleco: diálogo afiado, tensão bem construída, curiosidade científica de verdade (a autora tem doutorado em neurociência e é professora, então quando a Bee fala de trabalho é gente do ramo escrevendo) e um final que a gente já conhece desde a capa e quer mesmo assim. Nesse contrato, A Razão do Amor entrega.
Na régua da casa: um degrau abaixo de A Hipótese do Amor, porque novidade não acontece duas vezes, e confortavelmente acima da média das comédias românticas que o BookTok empurra. Um detalhe que melhora tudo: Marie Curie atravessa o livro inteiro em pílulas de curiosidade histórica reais, e você termina a leitura sabendo mais sobre ela do que a maioria dos documentários ensina.
Pra quem é, e pra quem não é
Leia se você amou A Hipótese do Amor e quer mais do mesmo (literalmente, e está tudo bem), gosta de inimigos que viram amantes quando o "inimigos" era um equívoco constrangedor, curte referência científica que não é enfeite, e quer uma temperatura presente, mas menos incendiária que romantasia.
Pule se a fórmula da Hipótese já te cansou na primeira rodada, se protagonista que não enxerga o óbvio te dá urticária, ou se você procura o rigor emocional de um drama literário. Aqui o compromisso é com a serotonina.
Perguntas rápidas
Precisa ler A Hipótese do Amor antes?
Não precisa. São histórias independentes, com personagens diferentes, e nada do enredo de um depende do outro. Ler na ordem só acrescenta a piada interna de reconhecer o tipo de humor e o tipo de homem que a autora gosta de escrever.
A Razão do Amor é continuação da Hipótese?
Não é. A confusão é comum porque os títulos combinam em português e porque os dois se passam no mundo acadêmico, mas o livro fecha sozinho, do começo ao fim.
Tem cena explícita?
Tem, e em quantidade moderada. É mais quente que romance de porta fechada e bem menos explícito que a romantasia adulta que anda dominando o BookTok. Recomendação da casa: maiores de 16, com bom senso.
Qual a ordem dos livros da Ali Hazelwood no Brasil?
Não existe ordem obrigatória, porque cada livro fecha sozinho. Por data de publicação aqui, a fila começa em A Hipótese do Amor, passa por A Razão do Amor, Odeio te amar, Amor, teoricamente, Xeque-mate e Noiva, que é a guinada paranormal da autora.
O Hazelwood-verso, para depois
A Arqueiro publicou praticamente a obra completa da autora no Brasil, então o buraco pós-leitura tem tratamento disponível:
- A Hipótese do Amor, se por algum acaso você chegou aqui sem ler o fenômeno. O nosso guia completo está aqui.
- Amor, teoricamente, física teórica com namoro de mentira.
- Odeio te amar, três novelas curtas, que é a melhor porta de entrada para quem tem pouco tempo.
- Xeque-mate, a versão xadrez, mais leve e mais jovem.
- Noiva, a guinada paranormal. Sim, com vampiros. Sim, funciona.
Onde comprar
A Razão do Amor está na nossa estante. O livro sai daqui da loja direto para a sua casa, com a embalagem que você já conhece se já recebeu uma caixa nossa. Estoque é artesanal como a curadoria, então costuma ser pouca unidade de cada título.
E se você preferir deixar a ciência de lado e confiar no acaso, monte um kit surpresa de Romance e receba um encontro às cegas com o próximo livro que vai bagunçar suas hipóteses.

