A hipótese do amor — Ali Hazelwood
Existem coincidências, existem ironias, e existe o caso de A Hipótese do Amor, em que o universo claramente decidiu escrever fanfic da realidade.
Se você não conhece a história por trás da história, senta, porque é melhor que muita trama de livro.
Capítulo 1: era uma vez uma fanfic
Antes de ser best-seller do New York Times, antes de dominar o BookTok, antes de vender mais de 750 mil cópias, A Hipótese do Amor era uma fanfic publicada em 2018 no Archive of Our Own com o título Head Over Feet.
Fanfic de quê, você pergunta? De Star Wars. Mais especificamente, uma fanfic "Reylo" — o ship entre Rey e Kylo Ren, vividos nos cinemas por Daisy Ridley e Adam Driver. Em um universo alternativo acadêmico, sem sabres de luz, mas com muita tensão mal resolvida (então, tecnicamente, ainda bem fiel ao material original).
E a autora nem tentou esconder muito: olha a capa original do livro. Aquela moça de rabo de cavalo e aquele professor alto de cabelo escuro e expressão de quem carrega o peso da galáxia? Pois é, até o nome do mocinho (Adam Carlsen) é uma reverência ao Adam Driver. A melhor amiga da protagonista, Anh, foi inspirada na Rose Tico. O livro inteiro é um easter egg com capa dura.
Em 2020, uma agente literária descobriu a fanfic, farejou ouro, e ajudou Ali Hazelwood a transformar Rey e Kylo em Olive e Adam. O resto é história: best-seller do New York Times já na estreia e um fenômeno mundial.
Capítulo 2: Hollywood liga
Com esse tamanho de sucesso, a adaptação era questão de tempo. O projeto foi anunciado em 2022 e agora, finalmente, temos data: 23 de setembro de 2026, direto no Prime Video, com direção de Claire Scanlon (de Um Match Surpresa, então a moça entende de comédia romântica) e roteiro de Sarah Rothschild.
No elenco:
Lili Reinhart (a eterna Betty de Riverdale) como Olive e ela não só estrela como também produz o filme, o que sugere alguém genuinamente investida no material. Tom Bateman (Morte no Nilo) como o temível Dr. Adam Carlsen, Rachel Marsh como Anh, Jaboukie Young-White como Malcolm e Nicholas Duvernay como Jeremy completam o time.
Tudo muito bonito, tudo muito padrão de adaptação de BookTok. Até que você olha de novo para o nome do protagonista masculino.
Capítulo 3: o plot twist que nenhum roteirista teria coragem de escrever
Tom Bateman, o ator escalado para viver Adam Carlsen — o personagem criado à imagem e semelhança de Kylo Ren, escrito originalmente como Kylo Ren, inspirado fisicamente em Adam Driver, é casado na vida real com... Daisy Ridley, A Rey.
A METADE ORIGINAL DO SHIP.
Ou seja: o marido da Rey vai interpretar o personagem que nasceu como o par romântico da Rey numa fanfic. A mulher que inspirou a Olive vai assistir ao próprio marido beijando a versão cinematográfica da personagem que ela inspirou.
Eu preciso que vocês entendam a magnitude disso. Se eu escrevesse essa reviravolta num livro, meu editor cortaria por "inverossímil". O universo não só leu a fanfic como decidiu participar dela.
Capítulo 4: o que esperar (e o que temer)
Agora, a pergunta de um milhão de views: o filme vai dar conta do livro?
Motivos para otimismo:
O teaser já mostrou cenas queridas dos fãs, incluindo o beijo que começa tudo e o material de divulgação promete "química explosiva". Os próprios atores falaram em entrevistas sobre o cuidado em construir uma relação que pareça orgânica em tela. Lili Reinhart como produtora executiva significa alguém do time com carinho real pelo material de origem — historicamente, adaptações com autores/fãs na produção tendem a respeitar mais o espírito do original. Claire Scanlon já provou que sabe filmar comédia romântica com timing.
Motivos para roer as unhas:
O livro tem classificação 18+ por bons motivos (leitores do capítulo 16 sabem exatamente do que estou falando). Filmes de streaming voltados a público amplo costumam dar uma resfriada nessas cenas. Prevejo cortes estratégicos para a versão exibida no avião. Boa parte do charme do livro está na narração interna da Olive, tais como, o sarcasmo, as hipóteses de abertura de capítulo, a espiral de pensamentos ansiosos. Transpor voz interior para cinema é o eterno calcanhar de Aquiles das adaptações literárias. As críticas sociais do livro (misoginia acadêmica, abuso de poder, precarização da pesquisa) são parte importante da história. Se o filme aparar essas arestas para entregar só a parte fofa, perde-se metade do que faz o livro ser mais do que "mais um romance".
Veredito preliminar
Adaptação de livro amado é sempre um experimento de alto risco: pode dar Como Eu Era Antes de Você ou pode dar aquelas adaptações que a gente finge que não existem.
Mas uma coisa é certa: entre a origem em fanfic, o casamento do protagonista com a musa inspiradora original e a pressão de milhões de leitores, A Hipótese do Amor já chega em setembro como o lançamento mais metalinguístico do ano.
Hipótese: estarei na frente da TV no dia 23 de setembro com o livro no colo para comparar cena por cena.
Você vai assistir? Já leu o livro? Conta nos comentários qual cena NÃO PODE ficar de fora — e se prepara, porque quando o filme sair, tem comparativo completo aqui na Estante Encantada.

